O que a beleza e a decoração revelam sobre a era do excesso
Atualizado: 20 de ago.

Vinho, rosas intensos, marrons, terracotas. Muita cor e muita textura. A paleta que está aparecendo com força na beleza também dominou muitos dos ambientes que vi na CASACOR São Paulo deste ano. E essa não foi coincidência.
Depois de anos de maquiagem quase com estética bem natural, o “mais é mais” chegou com força. Mais blush, mais brilho, olhos mais marcados, lábios ainda mais destacados. Na decoração, acontece um movimento semelhante: ambientes neutros - beges, brancos e cinzas - dão lugar a cores intensas, sobreposição de materiais, obras de arte em quantidade, muitos objetos e muitos focos de atenção.
Tendências não surgem isoladamente. Beleza, moda, arquitetura, hotelaria e comportamento se observam e se retroalimentam. Quando a mesma linguagem aparece ao mesmo tempo em diferentes setores, ela revela como estamos vivendo e sobre quem desejamos ser.
Foi com essa sensação que saí da CASACOR SP 2026. Cheguei buscando referências para os quadros da sala da minha casa, saí pensando sobre beleza, cultura, redes sociais, repertório e performance.
Sobre as cores

A cor vinho predominou na mostra. Assim como outras cores quentes, como rosas fortes e terrosos. São cores que se afastam do conceito da neutralidade dos cinzas e beges que dominaram a decoração nos últimos anos.
Na beleza, a mesma paleta de tons quentes e vivos reaparece nos batons terrosos, nos blushes em tons de ameixa e rosa e até nas máscaras de cílios cor de vinho. Os pêssegos e rosas deixam de ser esfumados delicados e aparecem bem pigmentados, principalmente no blush. São cores que não remetem à tecnologia nem à frieza. Têm aconchego e densidade.
O maximalismo não está somente nas cores, mas na maneira de usá-las: em camadas, com diferentes texturas, contraste e impacto visual.
O “mais é mais”


O maximalismo foi uma das características mais presentes nos ambientes. Tudo junto: cores intensas, estampas, pedras, madeiras escuras, obras de arte, livros, objetos e texturas. Muitos focos de atenção no mesmo lugar.
Uma estética que me lembrou o Rosewood, o hotel de SP que tem uma super personalidade na decoração. A linguagem também lembrou um hotel em Madrid onde fiquei recentemente, o Montera Madrid Curio Collection by Hilton. Projetado por Lázaro Rosa-Violán, o hotel mistura referências castelhanas, cores, elementos clássicos e contemporâneos.
Esse perfil de decoração cria um universo próprio, mas também revelam uma compreensão perfeita da lógica das redes sociais. Não basta oferecer um espaço agradável: é preciso criar vários cenários dentro do mesmo lugar e surpreender rapidamente. Cada canto possui um enquadramento e pode se transformar em conteúdo.
Então seria o maximalismo uma reação à neutralidade dos últimos anos ou o retrato de uma mente contemporânea cheia de estímulos?
Talvez sejam as duas coisas.

Depois de anos de minimalismo é compreensível que exista desejo por cor, mistura e personalidade. E o maximalismo pode ser afetivo. Uma casa preenchida por objetos reunidos ao longo de uma vida tem uma força profundamente humana que nenhum ambiente frio consegue reproduzir.
O problema surge quando a abundância não nasce da história, mas apenas da necessidade de impacto. Quando o espaço não acolhe, apenas impressiona. Quando cada objeto disputa atenção e nada se fixa no olhar nem traz significado.
Nesse sentido, alguns ambientes instagramáveis parecem reproduzir a própria experiência digital: muitas informações, muitos estímulos, muitas imagens e pouco respiro.
Quando os objetos contam quem gostaríamos de ser

Entre tanta informação, o que mais me chamou atenção foi a quantidade de livros nos ambientes. Muitos. Em estantes monumentais, empilhados sobre mesas, ocupando paredes inteiras e aparecendo nos mais diferentes lugares.
Fiquei pensando se seria uma reação à vida digital. Quanto mais tempo diante de telas, maior parece ser o desejo por tudo o que é físico. O livro é exatamente essa "experiência".
Mas me pareceu que tinha ali outra camada. Os livros pareciam menos objetos de leitura e mais símbolos. Não comunicavam apenas “eu leio”, mas “eu sou uma pessoa culta, interessante e aprofundada”.
É curioso perceber que, quanto mais superficial se torna parte do nosso consumo de informação, maior parece ser a necessidade de demonstrar profundidade. Consumimos manchetes e vídeos curtos, mas decoramos a casa com extensas bibliotecas.

Livro virou um novo código de luxo. Representa tempo, silêncio, concentração e repertório. Recursos cada vez mais raros e, por isso mesmo, cada vez mais desejáveis.
É claro que quem lê naturalmente terá livros em casa. Nesse caso, a biblioteca não é cenário, mas consequência de uma vida. Nesse contexto, a casa passa a comunicar não apenas quem somos, mas também quem desejamos ser.
A beleza comunica
Na beleza, o “mais é mais” possui duas faces.
Há uma vertente criativa e interessante nesse movimento. Depois de anos de estética clean girl, a maquiagem volta a ser linguagem e diversão. Cores mais intensas e mistura de texturas trazem a possibilidade da maquiagem se tornar marca pessoal.
Mas existe outro tipo de excesso, menos ligado à criatividade e mais à padronização: mais volume nos lábios, mais contorno, mais cílios, mais produtos, mais etapas, mais protocolos e mais procedimentos. Nesse caso, o excesso não necessariamente amplia a individualidade. Muitas vezes, apaga diferenças e produz rostos cada vez mais semelhantes.
A relação com a casa é direta. Tanto o rosto quanto o ambiente podem se transformar em formas de comunicação. Ambos expressam quem somos ou, talvez, quem gostaríamos que os outros acreditassem que somos.
Todo excesso é sinal de fraqueza?

Há uma frase que meu pai sempre diz: “Todo excesso é sinal de fraqueza”. Ela provoca porque sugere que o excesso tenta compensar alguma ausência.
Uma estante cheia não produz repertório. Um ambiente repleto de objetos não cria memória. Da mesma forma, ter o rosto da moda não garante identidade ou segurança.
Porém a questão mais interessante talvez não esteja na quantidade, mas na origem. Os objetos revelam histórias vividas ou histórias fabricadas? A estética expressa uma identidade ou tenta construí-la?
A CASACOR, por ser uma mostra, naturalmente exagera sinais e na concentração de tendências. Seus ambientes não pretendem reproduzir casas comuns. Mas é justamente esse exagero que a torna tão reveladora. Percebi quase uma caricatura sofisticada do imaginário contemporâneo.
Saí de lá pensando que a grande tendência talvez não seja o maximalismo, o vinho, os livros ou qualquer material específico. É a busca incessante por identidade e pertencimento. Nossas escolhas contam a história sobre nós e também revelam como desejamos ser percebidos.
E talvez o luxo mais raro seja justamente não precisar provar nada para ninguém.





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