top of page

Onde nascem as tendências?

Foto do escritor: Carolina Habeyche
Carolina Habeyche
19 de ago.
4 min de leitura

Atualizado: 28 de ago.


Você já deve ter percebido: de repente, uma mesma cor começa a aparecer em vários lugares. Está na moda, na maquiagem, na decoração, nos automóveis, nos hotéis. Formas, texturas e estéticas parecem atravessar indústrias completamente diferentes quase ao mesmo tempo.

Não é coincidência.

Na Copa deste ano, por exemplo, chuteiras rosa-pink apareceram em diferentes marcas.

Foi algo parecido que observei na CASACOR São Paulo este ano. Muitos dos movimentos que encontrei na decoração também estavam aparecendo na moda e na beleza.

Cores mais intensas. Sobreposição. Texturas. Objetos carregados de memória. Referências ao passado. Uma estética bem menos contida do que o minimalismo que vinha predominando.

E fica a pergunta: por que indústrias aparentemente tão diferentes começam a apresentar movimentos semelhantes ao mesmo tempo?

Para responder, precisamos voltar um pouco.


Antes de uma tendência chegar



Quando estudei moda, em 2006 e 2007, aprendi a olhar para tendências como parte de um sistema muito maior.

Observávamos o que acontecia na moda, mas também no design, na arquitetura, nos automóveis, eletrodomésticos, nas novas tecnologias, nos materiais, nas cores e, principalmente, no comportamento.

Naquela época, os bureaux de tendências tinham um papel muito importante nesse processo.

Profissionais espalhados pelo mundo observavam sinais culturais, mudanças de comportamento e movimentos artísticos. Essas informações eram organizadas, interpretadas e transformadas em previsões que ajudavam diferentes indústrias a decidir o que desenvolver nos anos seguintes.

A WGSN, uma das principais empresas de trend forecasting do mundo, nasceu em 1998, justamente no momento em que esse sistema começava a se digitalizar. Antes disso, boa parte das previsões circulava por meio dos chamados trend books, publicações físicas que levavam meses para serem produzidas.

Mas existe uma diferença importante entre observar uma tendência e criá-la.

Tendências não surgem simplesmente porque uma indústria decidiu que determinada cor será usada.

Elas precisam encontrar correspondência com o momento cultural.


Existe alguma coisa antes da cor



Por trás de uma tendência estética geralmente existe uma transformação menos visível. Uma mudança na forma como queremos viver. No que valorizamos. No que rejeitamos. No que desejamos.

A cor, a textura, a forma e os produtos são manifestações. Antes deles, existe um desejo. Nem sempre consciente, mas que acaba encontrando alguma forma de expressão.

Um exemplo vem da própria indústria da beleza. Nos anos 70 e 80, as campanhas do perfume Charlie, da Revlon, retratavam uma mulher cada vez mais independente e profissional, usando ternos, ombros marcados e códigos antes associados ao universo masculino. A estética do power dressing acompanhava uma transformação que já estava acontecendo na sociedade.

Em outros momentos, especialmente em períodos de insegurança, vemos crescer a busca por roupas amplas e macias, como o loungewear e o comfort dressing. Podemos interpretá-las simbolicamente como uma procura por acolhimento e proteção.

A estética muda à medida daquilo que estamos vivendo.


Como uma tendência se espalha



Uma coisa é a formação de uma tendência. Outra é sua difusão.

Em 1962, Everett Rogers apresentou uma teoria que se tornaria uma das principais referências para entender como novas ideias e inovações se espalham pela sociedade.

Ele dividiu os indivíduos em cinco grupos de acordo com o momento em que adotam uma inovação: innovators, early adopters, early majority, late majority e laggards.

Primeiro existe um grupo muito pequeno disposto a experimentar o novo. Depois vêm aqueles capazes de perceber valor naquele movimento antes da maioria.

Aos poucos, aquilo deixa de parecer estranho e passa a ser adotado por grupos cada vez maiores.

O modelo continua interessante para entender a difusão.

O que mudou radicalmente foram os caminhos e, principalmente, a velocidade.



Quando o consumidor entrou no começo da cadeia



Durante muito tempo, o fluxo das tendências era mais concentrado.

Especialistas, revistas, feiras, bureaus, designers e empresas identificavam sinais, interpretavam movimentos e ajudavam a transformá-los em produtos que depois chegariam ao mercado.

A internet começou a desmontar essa linearidade.

As redes sociais aceleraram o processo.

E os dados acrescentaram uma nova dimensão.

Hoje, além de observar o que as pessoas dizem, vestem ou fazem, podemos encontrar sinais no que elas pesquisam, compram, compartilham, comentam, salvam, rejeitam e reproduzem.

O olhar treinado continua importante, mas ganhou uma quantidade de informação que simplesmente não existia quando comecei a estudar tendências.

Uma manifestação estética pode nascer dentro de uma pequena comunidade, ganhar força nas redes sociais, aparecer nos dados, ser identificada pela indústria e rapidamente voltar ao consumidor na forma de produto.

E o próprio consumidor pode modificar esse produto, dar a ele outro uso, produzir conteúdo e gerar um novo movimento.

O consumidor deixou de ocupar apenas o final da cadeia.

Ele passou a alimentar o começo dela.

O fluxo tornou-se circular:

comportamento → sinais → comunidades → dados → indústria → produto → consumidor → novos sinais

E o ciclo recomeça.


Quem lança uma tendência?


Talvez essa pergunta já não tenha uma resposta simples.

Pode ser um designer. Uma inovação tecnológica. Uma comunidade. Uma artista. Uma mudança econômica. Uma subcultura. Um comportamento que começa a se repetir.

Ou milhares de pessoas manifestando, sem combinar entre si, desejos semelhantes.

Por isso, estudar tendências exige muito mais do que acompanhar aquilo que está "em alta".

É preciso observar comportamento, cultura, tecnologia e mercado. Hoje, também é preciso saber olhar para os dados e encontrar neles padrões que talvez ainda não sejam evidentes.

Mas, para mim, a resposta está em uma etapa fundamental: fazer conexões.

Um sinal isolado pode não dizer muita coisa.

Mas quando sinais aparentemente desconectados começam a apontar para a mesma direção, começamos a enxergar um padrão.

É aí que uma tendência começa a se revelar.

E você, tem percebido algum sinal se repetindo em lugares diferentes ultimamente? 


*Imagens ilustrativas produzidas por IA.







 
 
 

Comentários


bottom of page